Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong foi para mim o livro certo na hora certa. Em um mundo em que o mais importante sempre é o próximo passo, a autora Hwang Bo-Reum, convida o leitor a buscar o contrário: a satisfação no dia de hoje.
“- Sim, a felicidade não é tão difícil de encontrar. Ela não está num passado remoto, ou num futuro distante. Está bem diante dos nossos olhos. (pág. 175)”
Somos apresentados aos personagens de forma gradual e sutil ao mesmo tempo em que entendemos o funcionamento da livraria. Entendemos que Yeongju é a dona e Minjun trabalha no café da livraria. Ambos estão passando por momentos de angústia e de dúvida, mesmo que não conversem, num primeiro momento, sobre isso. Nós leitores também ficamos no escuro, como se tivéssemos acabado de conhecer os personagens, eles não têm intimidade suficiente para se abrir. Os dois buscam se encontrar nessa nova fase de suas vidas e estão usando a livraria como fuga de suas vidas passadas.
Ao longo dos capítulos, vários outros personagens são apresentados. A princípio são somente clientes, mas pouco a pouco tanto Minjun quanto Yeongju vão firmando uma amizade e companheirismo com vários deles e à medida que isso acontece, os personagens vão se sentindo mais confortáveis para serem vulneráveis uns com os outros. Descobrimos, junto dos personagens, seus passados, angústias e ansiedades. Todos eles buscavam algo que encontraram na Livraria Hyunam-Dong: carinho e companhia.

O trabalho como forma de salvação também é ponto central no livro. No capítulo “A forma como encaramos o trabalho” os personagens são questionados sobre a felicidade que sentem ou sentiram durante seus respectivos trabalhos. Muitos deles percebem que a resposta era nenhuma ou até infelicidade. Muitos haviam chegado a um cargo que sempre desejaram, mas se sentiam mais tristes do que nunca. Qual o motivo disso?
Em meio às discussões deste capítulo é possível ter um panorama bem complexo do que é o trabalho contemporâneo. Em um mundo em que a produtividade está extremamente desenvolvida – automação e a próspera inteligência artificial – ainda precisamos trabalhar tanto quanto ou ainda mais que antigamente. O motivo disso é que acreditamos piamente que só teremos valor se estivermos trabalhando. Colocamos o trabalho num pedestal, não por nos sentirmos completos com ele, mas porque acreditamos que os “que trabalham são membros contribuintes da sociedade, enquanto os desempregados são vagabundos e inúteis (pág. 131)”. Isso independe se o tranalho agrega qualquer valor ou não. Em muitos casos as pessoas podem se deslumbrar com suas profissões e torná-las sua única fonte de caráter e identidade. Porém, fazer alguma outra atividade que não seja formalmente um trabalho, ou o melhor trabalho, talvez acrescente muito mais individualidade, satisfação e sensação de completude do que o tal trabalho dos sonhos jamais poderá acrescentar.
“O problema aqui não é que o processo de trabalho não apresenta oportunidades para expressão e identificação mas que o empregador espere que os trabalhadores se envolvam e se dedique somente ao trabalho. (pág 132)”
Yeongju e Minjun, assim como muitos de nós, sentiam uma obrigação pessoal para atingirem seu potencial e atender às expectativas que foram colocadas sobre eles. Quando pequenos, somos sempre perguntados sobre qual profissão queremos ter e nunca sobre o que gostaríamos de ter conquistado na nossa vida adulta. É dado muito mais valor ao objetivo final do que o caminho que percorremos. Vale a pena se tornar o que sempre sonhou em ser, mas ter uma vida miserável buscando isso? Essa é a questão levantada pelo livro.

Os personagens escolhem deixar seus antigos trabalhos em busca de uma vida mais simples porém mais prazerosa e acabam se encontrando na livraria; cada um com trajetórias pessoais específicas, mas com objetivos em comum. O termo downshifting – que tem como definição a redução das horas de trabalho, mudança de emprego para um menos exigente (mesmo com redução salarial) e priorização do lazer e realização pessoal – é citado como uma explicação racional acerca das decisões dos personagens. A princípio os dois sofrem com medo de terem feito a escolha errada e de serem julgados por suas famílias e amigos. No entanto, aos poucos ganham confiança e aprendem a se sentirem satisfeitos com a própria felicidade.
Muito mais do que um livro confortável, “Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong” instiga o leitor a encontrar seu valor e sentir orgulho das pequenas conquistas do dia-a-dia.
“A régua que mede o seu valor precisa estar dentro de si. (pág. 271)”

A autora, Hwang Bo-Reum, na Bienal do Livro de 2024 em São Paulo. / Fotografia: Divulgação/Intrínseca editora
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