São Paulo nas Alturas por Raul Juste Lores caiu em minhas mãos em um momento muito oportuno. Minha transferência para a FAU Mackenzie tem reacendido minha paixão por arquitetura e estar em Higienópolis rodeado de ícones arquitetônicos – muitos deles comentados neste livro – é incrivelmente instigante.

Tantos edifícios residenciais lindos, funcionais e que se conectam à cidade – algo totalmente escasso na capital paulista – concentrados em um só bairro fizeram minha curiosidade disparar. Queria saber mais. Portanto, ao me deparar com o livro de Juste Lores sobre este exato período histórico da cidade de São Paulo – e também já ser fã do autor por conta de seu canal no YouTube – senti uma necessidade de me inteirar neste hall de marcos da arquitetura paulistana que é Higienópolis e o Centro Novo.

Edifício Lausanne, de Franz Heep, é um dos marcos de Higienópolis / Fotografia: Guilherme Marcato
Partindo deste ponto, existem três questões que marcaram minha leitura e sinto que merecem ser elaboradas e refletidas. São elas:
- A teoria modernista e a criação de uma imagem nacional por forte influência da construção de Brasília.
- O purismo ideológico que afastou a arquitetura e os arquitetos do mercado imobiliário e suas consequências para a paisagem urbana.
- Tímida reaproximação do arquiteto ao mercado por parte de escritórios contemporâneos e a necessidade de reconstruir São Paulo.
Ideais como estruturas modulares, habitações mínimas e racionalização de matérias se tornam pautas importantes na Europa pós segunda guerra mundial. Em meio a este contexto a teoria modernista ganha força no cenário acadêmico mundial – exemplos simbólicos são a alemã Bauhaus e Vkhutemas na Rússia – e vira a grande marca de uma nova era industrial.
Enquanto líderes e a população europeia relutam a vanguarda moderna, o Brasil, então governado por Getúlio Vargas em sua ditadura, enxerga a arquitetura moderna como meio de sinalizar ao povo que o país está se desenvolvendo e se afirmar no poder. Praticamente a mando do governo federal, Le Corbusier, pai da arquitetura moderna, é convidado para projetar a nova sede do Ministério da Educação e Cultura no Rio de Janeiro – em parceria com arquitetos mais jovens brasileiros. Em sua conclusão, o edifício se torna o primeiro arranha céu à cartilha modernista do mundo.

Palácio Capanema, projeto que marca o início do movimento moderno no Brasil / Fotografia: Oscar Liberal/Iphan
O MEC, atualmente Palácio Capanema, com escopo e repercussão internacional, ganha a popularidade da nova leva de arquitetos brasileiros e catalisam a produção à la Le Corbusier no país. Assim, sedimentando o Brasil como linha de frente da produção moderna mundial. Arquitetos como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Rino Levi viram protagonistas, e até celebridades, da intelectualidade brasileira. Este cenário chega em seu ápice durante o governo de Juscelino Kubitschek com a construção de Brasília.
“Antes mesmo da Bossa Nova e de Pelé, era a arquitetura que promovia o made in Brazil mundo afora. (pág. 15)“
Como qualquer capital de um grande país, Brasília se torna uma referência simbólica do Brasil; referência, neste caso, de superação do colonialismo e emancipação intelectual do povo brasileiro rumo ao desenvolvimento. Essa acepção heróica da construção da nova capital foi amplamente divulgada pelo governo e crítica especializada, e também teve forte apelo para a sociedade civil brasileira como um todo.

Juscelino Kubitschek em publicação na revista O Cruzeiro sobre a inauguração de Brasília / Fotografia: Divulgação/UPF
Pode-se dizer portanto, que o movimento moderno deu ao brasileiro finalmente algo que ele poderia chamar de seu. A capital do país foi idealizada, projetada, construída e fundada por cidadãos totalmente brasileiros – ao contrário das duas antigas. As décadas em que o modernismo reina, não só em São Paulo mas em todo o país, são coroadas com a promessa de uma nova sociedade. O Brasil finalmente era do brasileiro; esse era o significado de Brasília. A partir desta análise, torna-se simples compreender o motivo de, nós arquitetos brasileiros, nos sentirmos presos ao moderno. Porque, de certa forma, foi de onde nascemos.

Multidão durante a inauguração de Brasília / Fotografia: Divulgação/Arquivo Estadão
Por outro lado, a construção de Brasília trouxe algumas consequências negativas principalmente para a capital paulista. Como comentado no livro, a gastança desenfreada com materiais importados fez com que a inflação galopasse mês atrás de mês e que materiais de construção se tornassem escassos no mercado. Isso ocorreu justamente durante um período de boom imobiliário em São Paulo, assim, atrasando e encarecendo praticamente todas as obras ainda não terminadas. Incorporadores – muitas vezes também arquitetos – e bancos de financiamento quebraram. Diversas obras são atrasadas, entregues em mau estado ou projetos originais são alterados pelas construtoras a fim de não darem prejuízo.
“Em menos de dois anos, entre 1960 e 1962, acossado por acusações e processos, Artacho (Jurado) praticamente passou adiante todos os seus prédios inacabados. (pág. 218)”
Toda essa confusão gera um mal estar no campo da arquitetura, grandes nomes como Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas passam a abertamente criticar empreendimentos privados e o lucro gerado – dizendo que a arquitetura não deveria ser comercializada – e passam a focar suas produções em obras institucionais. O posicionamento de dois grandes astros em oposição ao mercado privado dobra com facilidade a grande massa de arquitetos do país. Projetos imobiliários, de escritórios e comerciais passam a ser totalmente inadequados e de segunda categoria aos olhos da nata da arquitetura paulistana.
“As críticas ao mercado imobiliário encabeçadas por Niemeyer e Artigas – e ecoadas por centenas de discípulos atentos a esses dois faróis da classe dos arquitetos – não demoraram a implodir o status dos projetos comerciais. (pág. 245)”

Rodoviária de Jaú, de Vilanova Artigas, é um dos projetos que marcam a virada no cenário arquitetônico paulistano pós-construção de Brasília / Fotografia: Nelson Kon
Por mais revolucionário que tal ideal tenha sido, a realidade é que o mercado pouco se importou com a preferência dos arquitetos por obras públicas. Ao contrário, passou a focar de forma descarada somente no lucro dos empreendimentos. Má qualidade dos materiais, residências claustrofóbicas, mal ventiladas, com pouca insolação e edifícios sem nenhuma relação com a cidade passaram a ser a constante nos novos empreendimentos. Logo, as poucas incorporadoras e construtoras que tinham mantido um padrão de qualidade também quebraram; a propósito, qualidade custa caro e, em meio a crise, pouca gente poderia se dar ao luxo.
“Esse afastamento, porém, deixou os arquitetos longe, muito longe, da nova geração de incorporadores do mercado imobiliário que surgiria poucos anos depois e em condições muito diferentes das dos heroicos e um tanto amadores protagonistas dos anos 1950. Eles praticamente não participaram da fase seguinte de produção em massa de milhões de apartamentos, sob a égide da ditadura e à margem de qualquer escola de arquitetura. (pág. 231)”
Quanto mais os arquitetos torciam a cara pro mercado, menos ele se importava. E foi nesse contexto que São Paulo presenciou uma grande cisão entre arquitetura e mercado. Por motivos nobres, sim; porém, abrindo mão do maior potencializador de transformações urbanas de qualquer cidade e focando somente nos escassos concursos públicos. A cidade cresceu horizontalmente e verticalmente, e os arquitetos escolheram não participar da brincadeira. O resultado está aí para todo mundo ver.

Condomínio Place Royale Perdizes é um reflexo do mercado imobiliário pós-abandono dos arquitetos / Fotografia: Divulgação/Manoel Santos: corretor de imóveis
O purismo ideológico de uma geração nos custou a qualidade de vida que tanto ansiamos hoje em dia. Por isso, é de extrema necessidade que os arquitetos se reaproximem do mercado, tanto para participar das transformações urbanas tanto para reivindicar mudanças dentro do próprio mercado; é impossível mudar o sistema simplesmente se opondo totalmente a ele.
Felizmente, na última década alguns novos profissionais começaram a se aventurar de volta no mercado privado – muito provavelmente por terem chegado na mesma conclusão. Novas incorporadoras – IdeaZarvos, Tico e MOS – surgiram focadas em construir empreendimentos de qualidade e escritórios como Terra e Tuma, MK27 e Andrade Morettin compraram a ideia. Pela sua inegável qualidade, a produção destes escritórios tem colocado em xeque os arquitetos mais conservadores que ainda se opõem à verticalização. Os novos empreendimentos esbanjam boa fruição pública, relação com a calçada e qualidade de materiais; tornando nítido que o problema dos novos edifícios em São Paulo não são a verticalização em si, mas a sua má qualidade. É preciso entender com clareza essa questão. Cidades como Nova Iorque e Londres são repletas de edifícios duas ou três vezes maior do que a maioria dos prédios residenciais em São Paulo, porém não estragam a cidade por conta disso, pelo contrário, em muitos casos melhoraram a fruição pública, aumentaram as atividades comerciais de seu entorno e melhoraram a vida dos residentes.

Edifício Ourânia, projeto do escritório MK27, é um dos exemplos da volta da arquitetura de qualidade para o mercado privado de São Paulo/ Fotografia: Fernando Guerra
Em conclusão, o livro “São Paulo Nas Alturas” me trouxe importantíssimas reflexões. Muito além de ser uma ficha técnica de grandes edifícios e biografias de arquitetos importantes das décadas de 50 e 60, o livro traça um panorama bem completo – porém, nada complicado – do contexto histórico daqueles 20 anos e impactos na produção arquitetônica das décadas seguintes e também na capital de hoje em dia.
Com uma linguagem carismática, o autor costura assuntos densos – como a teoria modernista e sua grande influência no cenário nacional, o boom do mercado imobiliário, a chegada de arquitetos estrangeiros, inflação, ditadura e purismo ideológico – de forma cativante e instiga o leitor, presumidamente arquiteto e urbanista ou bastante entusiasta no assunto, a vislumbrar o futuro da cidade de São Paulo à imagem deste período de produção de arquiteturas de altíssima qualidade.

Raul Juste Lores / Fotografia: Divulgação/DW
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